Cannes premia “Titane”, da diretora Julia Ducournau, com a Palma de Ouro
Thriller sobre a assassina que faz sexo com um Cadillac não deixou ninguém indiferente

 

Francesa Julia Ducournau (c) foi a segunda mulher a vencer a competição em 74 edições

 

Por Elaine Guerini, do Valor Econômico

A ousadia venceu. “Titane”, o thriller sobre a assassina que faz sexo com um Cadillac, levou neste sábado a Palma de Ouro desta 74ª edição do Festival de Cannes. Foi certamente o filme acolhido com mais intensidade na Croisette, tanto por quem o amou quanto por quem o odiou. Ninguém fica indiferente diante dessa história contada em ritmo nervoso, pontuada por violência gráfica e com um quê de “Crash: Estranhos Prazeres” (1996), de David Cronenberg, principalmente por carregar de erotismo a relação entre humanos e máquinas.

Para começar, Alexia (vivida pela estreante Agathe Rousselle) desperta estranheza e até repulsa no espectador. Com uma placa de titânio em seu cérebro, desde que sofreu um acidente de carro na infância, a jovem terá um comportamento bizarro do começo ao fim. Mas quem embarca na loucura, aos poucos percebe que a protagonista é uma desculpa para diretora francesa Julia Ducournau refletir sobre barreiras sexuais, estereótipos masculinos e femininos, fluidez de gêneros e amor incondicional.

Comprado pela plataforma de streaming Mubi, onde sua estreia ainda não foi definida, “Titane” foi recompensado sobretudo por seu atrevimento, o que vem acompanhado, muitas vezes, de humor. Quando a personagem engravida do Cadillac, seus peitos não se enchem de leite e sim de óleo para motor, o que arranca gargalhadas da plateia.

E talvez a escolha de “Titane” tenha sido a melhor maneira de honrar a própria audácia de Cannes, de apostar em festival presencial em tempos de covid-19. E sem deixar que a sua magnitude, por ser o maior festival de cinema do mundo, fosse ofuscada pela pandemia. Todos os dias o seu tapete vermelho exportou imagens de estrelas para todo o mundo. E sem que elas perdessem o glamour, cobrindo o sorriso com máscaras.

Para isso, foi preciso criar uma espécie de “bolha sanitária”. E de grande porte, por envolver cerca de 28 mil participantes, o que exigiu uma logística complexa e arriscada. A maioria dos credenciados precisou ser testada, a cada 48 horas. Foi o único jeito de controlar a entrada no Palais des Festivals de quem não conseguiu comprovar vacinação completa (dentro da Europa) ou não tinha um atestado recente de recuperação de covid-19.

O controle, apesar de trabalhoso, demonstrou ser eficaz, até porque o uso da máscara, obrigatório (exceto para as estrelas no tapete), nem sempre foi respeitado nas salas de cinema. Quando as luzes se apagavam, era comum ver espectadores tirando a proteção, em espaços como o Grand Théâtre Lumière, com capacidade para até 2.300 pessoas. Mas nada que tenha comprometido a segurança de Cannes. No final, o festival saiu vitorioso, servindo provavelmente de modelo para outros grandes do gênero daqui para frente.

Antes da estatueta principal cair nas mãos de Julia Ducournau, houve quase uma chuva de troféus. Duas categorias tiveram dois vencedores, o que sempre enfraquece a conquista. O iraniano Asghar Farhadi, diretor de “A Hero”, dividiu o Grande Prêmio do Júri com Juho Kuosmanen, por “Hytti N°6”, que representou a Finlândia.

O Prêmio do Júri foi dividido entre “Memória”, de Apichatpong Weerasethakul (Tailândia), e “HaBerecht”, de Nadav Lapid (Israel). A comédia musical “Annette” deu ao francês Léos Carax a estatueta de melhor diretor, enquanto coube à produção japonesa “Drive My Car”, a preferida dos críticos, apenas o prêmio de melhor roteiro.

O troféu de melhor ator foi entregue a Caleb Landry Jones, pelo filme australiano “Nitram”. Na categoria de melhor interpretação feminina, Renate Reinsve foi premiada, por “Verdens Verste Menneske”, representando a Noruega.

A premiação deste ano teve um gostinho brasileiro, já que o cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho integrou o júri presidido por Spike Lee. O americano também deu constantes provas de ousadia durante os 12 dias da maratona cinematográfica. Sobretudo com o seu guarda-roupa. Depois do terno cor-de-rosa choque usado na abertura, o diretor escolheu um traje multicolorido para o encerramento, sempre acompanhado de tênis de basquete.

Mas nada surpreendeu tanto quanto a gafe que Lee cometeu nesta noite. Atrapalhado, o cineasta revelou logo no início da cerimônia que “Titane” levaria a Palma de Ouro, para o desespero da apresentadora Doria Tillier, que tentou disfarçar e contornar a situação. A cineasta francesa Mati Diop, também do júri, cobriu o rosto com as mãos, inconformada.