O Minotauro da saúde

Há muitos aspectos de mitos e de tragédia grega no Estado brasileiro. Falando especificamente do setor de saúde, às vezes nos sentimos como Cassandras, anunciando profecias funestas para ouvidos moucos.

Uma interação recente sobre o tema da terceirização lembrou-me a história do Minotauro de Knossos, na ilha de Creta -uma monstruosidade que tinha cabeça de touro e corpo de humano. A experiência recente com o Minotauro estatal, no entanto, envolve uma profunda desconexão entre discurso e ação.

Cabe aqui, antes de prosseguir, explicar a importância da terceirização para o setor de saúde, e em especial para os hospitais e os médicos.

A medicina tem se especializado cada vez mais, uma evolução extremamente positiva para os pacientes. A antiga divisão básica entre cirurgiões e clínicos foi suplantada por uma infinidade de profissionais que entendem cada vez mais sobre condições clínicas e partes específicas do corpo.

A contrapartida dessa questão é que raramente há, em um só hospital, pacientes em número suficiente para preencher o dia de trabalho desses médicos ultraespecializados.

Aliás, nem sequer há médicos em número suficiente, mesmo nas regiões mais ricas do país, para dar conta de todas as contratações em regime de emprego que se fariam necessárias, a não ser que houvesse sobreposição de jornadas de trabalho, algo inadmitido pela legislação.

Assim, não há sentido em manter médicos ociosos quando poderiam estar atendendo a pacientes, nem preservar vínculos trabalhistas tradicionais com profissionais que não os querem, uma vez que com eles a sua atividade profissional teria menor remuneração e seria menos satisfatória.

Isso é tão amplamente aceito entre médicos e hospitais que menos de 4% das relações laborais dessas partes ocorrem nos moldes da CLT.

Esses são temas caros ao setor de saúde, e é dever das entidades representativas disponibilizar seus conhecimentos técnicos para a criação de políticas públicas mais adequadas ao país.

As particularidades da saúde impõem condições de trabalho diferentes das de outros setores. Nesse espírito, a Associação Nacional de Hospitais Privados enviou ofício ao Ministério do Trabalho, colocando-se à disposição para contribuir para as discussões sobre o tema.

Neste momento, surgiu o Minotauro. Os mais altos níveis do governo vêm sinalizando positivamente para uma regulamentação que vise dar segurança jurídica às relações de terceirização. A cabeça e o corpo, porém, parecem pertencer a seres completamente diferentes.

O Ministério do Trabalho, em sua resposta, dá a impressão de considerar que o debate sobre terceirização busca, na verdade, escancarar as portas para a fraude e promover uma associação com uma forma de trabalho análoga à escravidão.

Para além do caráter improdutivo -e ofensivo à honra- da manifestação do ministério, evidencia-se ainda a imagem de um governo que não é coeso em suas políticas, deixando o setor produtivo inseguro para retomar investimentos.

A solução encontrada pelos cretenses para o Minotauro foi encerrá-lo em um gigantesco labirinto, do qual não conseguiria sair. No labirinto do Estado brasileiro, porém, estamos presos todos nós, junto a um Minotauro especializado em fornecer informações contraditórias

*Francisco Balestrin é presidente da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp)

Caixa antecipa pagamento do FGTS inativo para nascidos em março, abril e maio

2,1 mil agências da Caixa Econômica vão abrir no sábado, das 9h às 15h

O pagamento das contas inativas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para trabalhadores nascidos em março, abril e maio foi antecipado do dia 10 para o próximo sábado (8) deste mês.

Mais de 7,7 milhões de brasileiros têm direito ao saque a partir de abril, com valor disponível acima de R$ 11,2 bilhões, informou hoje (5) a Caixa Econômica Federal. Cerca de 2,3 milhões de trabalhadores (30%) receberão automaticamente o crédito nas contas da Caixa Econômica Federal no dia 8 de abril.

“O trabalhador não vai perder nenhum rendimento por termos antecipado para 8 de abril”, disse o presidente da Caixa, Gilberto Occhi. Ele explicou que o banco antecipou a atualização monetária e os juros dos saldos na conta para fazer o pagamento com o valor corrigido no sábado.

No dia 8, a Caixa abrirá 2,1 mil agências, entre 9h e 15h. Na primeira fase, foram abertas 1,8 mil agências nos sábados. Além disso, o banco informou que abrirá 200 salas de autoatendimento com a presença de funcionários para tirar dúvidas.

A relação das agências estará disponível no site do banco ainda hoje (www.caixa.gov.br). Também está prevista a abertura antecipada em duas horas das agências da Caixa entre a próxima segunda (10) e quarta-feira (12) para pagamento exclusivo de contas inativas do FGTS.

O diretor executivo de Fundos de Governo da Caixa, Valter Nunes, lembrou que no sábado não é possível transferir para outro banco por meio de Transferência Eletrônica Disponível (TED), mas os clientes poderão enviar o dinheiro por DOC (Documento de Crédito), limitado ao valor de até R$ 4.999, 99, com liberação do dinheiro na terça-feira e isenção de tarifas.

Para valores a partir de R$ 10 mil, a Caixa exige a carteira de trabalho e a liberação do dinheiro leva um dia para ocorrer.

Dificuldades para sacar

O presidente da Caixa disse que um dos principais problemas apresentados pelos trabalhadores para o saque na primeira fase foi a falta de informação sobre a data da demissão.

Ele lembrou que nesses casos as empresas têm que informar à Caixa que houve a demissão e o motivo. Quando isso não acontece, o trabalhador deve levar à Caixa a carteira de trabalho e o termo de rescisão. “Ao trazer essa documentação, o sistema precisa de dois dias úteis para que haja essa atualização”, disse.

No caso de o empregador não fazer os depósitos, a orientação da Caixa é procurar inicialmente a empresa e, se não for resolvido, o sindicato da categoria e a Superintendência Regional do Trabalho.

Balanço da primeira fase

Entre os dias 10 e 31 de março, a Caixa registrou o pagamento de mais de R$ 5,9 bilhões a cerca de 3,7 milhões de pessoas. O valor equivale a 85% do total inicialmente previsto (R$ 6,96 bilhões) e aproximadamente 77% dos trabalhadores (4,8 milhões), nascidos em janeiro e fevereiro, beneficiados com a Medida Provisória 763, que permite o saque de contas inativas. Segundo Occhi, na primeira fase 24 mil clientes dos bancos usaram o dinheiro do FGTS para quitar R$ 368 milhões de dívidas com o banco.

CCJ do Senado aprova documento único de identificação nacional

O Projeto de Lei da Câmara (PLC) 19/2017, que propõe reunir dados biométricos e civis, como Registro Geral, Carteira Nacional de Habilitação e o título de eleitor em um único documento, a Identificação Nacional, foi aprovado hoje (5) pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. A proposta ainda precisa passar por votação no plenário da Casa.

De acordo com o projeto, a Identificação Nacional dispensará a apresentação dos documentos que lhe deram origem ou nele mencionados e será emitido pela Justiça Eleitoral, ou por delegação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a outros órgãos. O documento será impresso pela Casa da Moeda e usará como base de identificação o Cadastro de Pessoa Física (CPF).

Conforme o texto, a Identificação Nacional será emitida com base na Identificação Civil Nacional, criada pelo projeto com o objetivo de juntar informações de identificação do cidadão. A nova base dados será gerida pelo TSE, que garantirá o acesso à União, aos estados, ao Distrito Federal, aos municípios e ao Poder Legislativo.

O relator do projeto na CCJ, senador Antonio Anastasia (PSDB-MG), ressaltou que há anos se discute um novo modelo de identificação civil para unificar documentos. Segundo ele, se convertida em lei, a mudança vai facilitar a vida do cidadão.

“A matéria desburocratiza a vida do cidadão, permitindo que um só documento sirva às mais diversas situações do dia a dia, nas quais se exige a comprovação de dados pessoais perante órgãos e entidades públicos e privados”, disse Anastasia.

Alfabetização entre crianças é desigual

As desigualdades na qualidade da educação começam desde cedo. No Brasil, crianças com famílias de níveis socioeconômicos mais altos têm desempenho considerado adequado desde a alfabetização. Entre aquelas com nível socioeconômico mais baixo, o percentual das que têm aprendizado considerado adequado chega a ser seis vezes menor.

Os dados são de levantamento feito pelo movimento Todos pela Educação (TPE), com base nos resultados da Avaliação Nacional da Alfabetização (ANA) de 2014. Entre as crianças que pertencem a camadas mais pobres da população, ou seja, cuja família tem renda de até um salário mínimo (R$ 937), apenas 45,4% têm o nível adequado, estabelecido pelo Ministério da Educação (MEC), em leitura, 24,9% em escrita e 14,3% em matemática.

Entre as crianças de famílias mais ricas, com renda familiar acima de sete salários mínimos (R$ 6.559), esses percentuais aumentam: 98,3% têm nível considerado adequado em leitura; 95,4% em escrita e 85,9% em matemática.

“O que preocupa é notar que as desigualdades começam muito cedo”, diz o gerente de Conteúdo do Todos pela Educação, Ricardo Falzetta. “Se tivesse um sistema funcionando muito bem, todos teriam as mesmas oportunidades, independentemente de raça, cor, religião, localidade. As condições socioeconômicas não mudam a capacidade de a criança aprender. Se tiver educação de qualidade, ela vai ter a mesma aprendizagem que qualquer outra criança”.

A ANA é uma prova aplicada em todo o país para alunos do 3º ano do ensino fundamental, etapa em que se completa o ciclo de alfabetização. Pelos critérios do MEC, um desempenho adequado significa tirar pelo menos 500 pontos na prova escrita; mais de 425 em leitura; mais de 525 em matemática. No total, 2,5 milhões fizeram as provas em 2014. Desses, 1,4 milhão não tem aprendizagem adequada em matemática, 865 mil não têm em escrita e 558 mil não têm em leitura.

Esses estudantes não são capazes, por exemplo, de localizar informações em um texto ou entender a sua finalidade. Em matemática, não são capazes de comparar quantidades ou de dividir pela metade.

Alfabetização obrigatória

“Essas crianças estão avançando nas séries sem o devido desenvolvimento. O domínio da língua passa a ser cada vez mais fundamental para avançar em todas as áreas”, diz Falzetta. Ele ressalta, no entanto, que não é possível desistir dessas gerações. “Não adianta dizer que a culpa é de quem não alfabetizou direito. Tem que entender que vai haver crianças em turmas heterogêneas e que é preciso ter estratégias para cada grupo”.

Ele reforça que ter uma escola bem preparada, com infraestrutura básica, acervo de livros disponível e que seja usado pelos professores, uma boa formação dos professores e participação dos pais, colabora para uma educação de qualidade, não apenas nos anos iniciais, mas em toda a escolarização.

Além disso, atenção maior deve ser dada aos grupos mais vulneráveis, para que avancem juntos. Os dados mostram que as desigualdades existem entre aqueles que moram na cidade e no campo e entre as regiões do país. A diferença no percentual de crianças com alfabetização adequada entre área urbana e área rural chega a 14 pontos percentuais em leitura, 20,6 pontos em escrita e 17,5 pontos em matemática, sendo que aqueles que moram na cidade têm os melhores desempenhos.

Entre as regiões, o Norte e o Nordeste registram os menores percentuais de crianças com alfabetização adequada. A diferença dessas regiões para as de melhor desempenho – Sudeste em leitura e matemática, e Sul em escrita – chega a 32 pontos percentuais em matemática 38,6 em escrita e 23,7 em leitura.

Fundado em 2006, o movimento Todos pela Educação estabelece cinco metas para que, até 2022, o Brasil garanta a todas as crianças e jovens o direito à educação de qualidade. Entre as metas está a de ter toda criança plenamente alfabetizada até os 8 anos. Por lei, pelo Plano Nacional de Educação (PNE), sancionado em 2014, o Brasil deve, até 2024, alfabetizar todas as crianças até o 3º ano do ensino fundamental.