Publicado inicialmente na Folha de S.Paulo. Leia aqui.
Área da saúde se manteve firme durante a pandemia e viu demanda por profissionais aumentar (Ilustração: Fido Nesti)
O interesse de universitários por carreiras da área da saúde tem se ampliado nos últimos anos, especialmente após a pandemia.
Dados da Educa Insights e da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes) mostram que o número de ingressantes em carreiras de saúde nas instituições particulares cresceu cerca de 146% entre 2015 e 2022 —nos cursos em geral, o aumento foi de 76%.
“Há uma maior demanda por profissionais de saúde”, afirma Celso Niskier, diretor-presidente da Abmes. “Naturalmente as universidades tentam acompanhar isso: quem não tem esses cursos busca criá-los.”
Entre as carreiras mais procuradas, Niskier destaca a medicina e a psicologia. “Estudantes do ensino básico também estão sofrendo com questões de saúde mental, e isso abre um mercado ainda maior para esse tipo de profissional”, diz ele.
No caso da medicina, o imbróglio quanto à abertura de novos cursos gera uma demanda reprimida, de acordo com o representante da Abmes. Momentaneamente parado, o tema está em julgamento no STF.
Niskier atribui a falta de vagas em faculdades de medicina no país à imigração de universitários para vizinhos na América do Sul, como a Argentina, onde há 20 mil brasileiros cursando a carreira.
Uma das universidades com interesse em formar médicos é o Mackenzie, que aguarda o processo de tramitação no MEC. A instituição construiu um novo prédio, de 6.300 m², no campus de Alphaville e pretende renovar seu portfólio de opções para graduação, que pode incluir psicologia e fisioterapia.
Hoje, os alunos da unidade cursam direito, administração, ciência da computação ou sistemas de informação.
Dos R$ 42 milhões investidos na construção do prédio, R$ 17 milhões foram destinados a laboratórios para saúde, incluindo instalações voltadas para medicina e enfermarias.
“Há um sonho antigo do Mackenzie de dedicar a área de Alphaville a vocações do campo da saúde”, diz Marco Tullio Vasconcelos, reitor da instituição presbiteriana. A universidade particular foi considerada a melhor de sua categoria na pesquisa Datafolha, com 23% das menções espontâneas.
Segundo Vasconcelos, a quarta vitória seguida no levantamento é fruto da constante modernização tecnológica e estrutural dos campi. Neste ano, foram inaugurados três novos laboratórios na faculdade de engenharia, por exemplo, que pela primeira vez teve mais estudantes ingressantes do que formandos.
Outro fator que explica a popularidade entre as classes A e B —contempladas pela pesquisa— é a proximidade do Mackenzie com o mercado e a indústria, seja institucionalmente, seja através dos professores, muitos dos quais dividem a docência com atuação profissional.
“Temos parcerias com grandes empresas nacionais e estrangeiras, que vêm olhar o que temos e, às vezes, até montam showrooms dentro dos nossos laboratórios”, acrescenta o reitor.
Também impulsionados pela pandemia, os cursos EAD têm se expandido dentro das instituições. O Mackenzie tem cerca de 4.500 alunos distribuídos entre 15 opções de graduação a distância, entre licenciaturas e tecnólogos.
A maioria das pessoas que optam pelo EAD, diz Vasconcelos, são mais velhas, já têm emprego e estão cursando a segunda graduação. No presencial, predominam os estudantes com idade entre 17 e 26 anos.
Elizabeth Guedes, presidente da Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) e membro do Conselho Nacional de Educação, chama atenção para o interesse de pequenas faculdades em oferecer apenas ensino a distância.
Ela critica as instituições que produzem conteúdo online sem base em um projeto pedagógico. “Eu acho que esse modelo tem perna curta, porque o que vence no final é a qualidade.”
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O secretário extraordinário da Reforma Tributária, Bernard Appy, em audiência no Senado (Foto: Agência Senado)
O secretário extraordinário da Reforma Tributária, Bernard Appy, rechaçou, nesta sexta-feira (26), as críticas de alguns empresários sobre trecho da proposta que impede as empresas de aproveitarem o crédito do imposto pago nas despesas com plano de saúde.
“Quando eu pago o meu funcionário e ele compra um plano de saúde, ele vai ser tributado. [Quando] uma empresa do Simples contrata um plano de saúde para os seus funcionários, ela vai ser tributada e não vai ter crédito. Aí, uma empresa do regime regular contrata um plano de saúde e recebe o crédito. Por que eu tenho que desonerar o consumo de plano de saúde? Quem se beneficia do plano de saúde é o empregado e a família do empregado”, disse Appy em evento organizado pela Amcham (Câmara Americana de Comércio para o Brasil).
“Por que eu tenho que desonerar quando o plano de saúde é contratado por uma empresa do lucro real ou presumido e não desonero quando é contratado por uma empresa do Simples e não desonero quando é contratado pela pessoa física?”, acrescentou.
O secretário abordou o tema após ser questionado por um dos executivos que estavam na plateia de que a não utilização do crédito nesse caso causaria impactos na áreas saúde e maior pressão no SUS (Sistema Único de Saúde).
A reforma tributária tem como base a criação de um modelo de tributação chamado de IVA (Imposto sobre Valor Agregado), que incide de forma não cumulativa, gerando um crédito para a próxima empresa na cadeia de produção. A empresa pode descontar o que já foi pago e recolher o imposto sobre a diferença.
Mas, no caso dos planos de saúde, as empresas não poderão aproveitar esse crédito, assim como gastos com seguro de vida.
Essa exclusão gerou críticas de vários executivos e é vista como uma das mais polêmicas do projeto de lei que regulamenta a reforma tributária apresentado pelo Ministério da Fazenda nesta semana.
Appy argumenta que a decisão de uma empresa de ofertar plano de saúde aos seus funcionários representa uma remuneração indireta; ou seja, sem ligação direta com a atividade da empresa.
Os tributos pagos na contratação de seguro contra acidente de trabalho, por outro lado, poderão ser abatidos no recolhimento da empresa, uma vez que têm a ver com a atividade exercida por ela.
“[Esse impedimento] não vai quebrar ninguém, vou ser bem claro aqui. Se hoje tem alguma distorção que gera uma vantagem competitiva para o plano coletivo, em detrimento do plano individual, essa distorção vai deixar de existir; esse é o princípio da neutralidade […] tenho certeza absoluta de que todo mundo vai continuar tendo direito ao plano de saúde”, disse Appy. Segundo ele, os críticos da medida “estão criando uma tempestade em um copo d’água”.
De acordo com a Abramge (Associação Brasileira de Planos de Saúde), a impossibilidade de as empresas aproveitarem o crédito do imposto pago nas despesas com plano de saúde atrapalha o setor. “A gente está indo em sentido contrário do mundo. O mundo ou isenta ou coloca alíquota zero no plano de saúde quando se fala em IVA”, diz Gustavo Ribeiro, presidente da associação.
“O absurdo é que uma reforma tributária que visa desburocratizar, numa área tão sensível como é a área de saúde vem burocratizando e onerando mais. O norte deveria ser facilitar a vida do cidadão”, acrescenta.
Os planos de saúde, por sua vez, serão tributados em regime específico. A base de cálculo será uma espécie de margem, obtida a partir da diferença entre prêmios e contraprestações pagas pelos usuários e os gastos com cobertura.
A alíquota será a mesma aplicada aos serviços de saúde, equivalente a 40% da cobrança de referência. O governo estimou uma alíquota média de 26,5% —se confirmada, a alíquota reduzida ficaria em 10,6%.
O ministro Fernando Haddad (Fazenda) entregou ao Congresso Nacional nesta quarta-feira (24) a primeira proposta de regulamentação da reforma tributária (Foto: Marina Ramos/Câmara dos Deputados)
Imposto Seletivo
Ainda no evento desta sexta, Appy disse que o imposto seletivo, que incide sobre produção, extração, comercialização ou importação de bens e serviços prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente, tem natureza extrafiscal e não arrecadatória.
“Ele é desenhado para ser extrafiscal; as pessoas não entenderam isso. Sessenta por cento da arrecadação do imposto seletivo, que é federal, vai para estados e municípios. Quem é que vai querer usar, com fins arrecadatórios, o imposto do qual ele tem o ônus de cobrar e fica com 40% da arrecadação? Não faz sentido querer usar o imposto seletivo para fins arrecadatórios”, afirmou.
O governo incluiu no escopo desse tributo a aquisição de veículos, aeronaves e embarcações. Para o Executivo, a inclusão se justifica porque eles são “emissores de poluentes que causam danos ao meio ambiente e ao homem”.
Empresários, porém, temem que o imposto incida mais de uma vez sobre um mesmo bem ao longo da cadeia produtiva, gerando possível cumulatividade. O moderador do evento da Amcham, por exemplo, questionou Appy sobre a possibilidade de o aço utilizado na produção de um veículo ser alvo do imposto, assim como a venda do próprio veículo.
“A incidência é monofásica, agora mineral é uma coisa, carro é outra. Quem colocou os minerais na base do imposto seletivo foi o Congresso Nacional. Foi o Senado Federal e foi mantido na Câmara dos Deputados. Não foi o governo que colocou isso, nunca defendemos isso”, disse o secretário.
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Fleury e Lavoisier ficam em primeiro lugar na categoria “laboratórios de análise” do prêmio O Melhor de São Paulo (Ilustração: Fido Nesti)
Laboratórios de análise buscam humanizar a jornada de saúde dos pacientes com a oferta de produtos, serviços e ações personalizadas, que vão além dos exames diagnósticos.
“Uma abordagem mais individualizada significa considerar não apenas os resultados dos testes, mas também as características únicas de cada paciente”, diz Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed (Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica).
Para melhorar a experiência de pessoas com transtorno do espectro autista (TEA) durante os atendimentos, o Lavoisier inaugurou uma sala especial, projetada com iluminações e cores suaves, com o objetivo de reduzir a carga sensorial do ambiente.
O laboratório oferece também uma cartilha aos pacientes com autismo, que explica todo o processo da coleta de sangue em forma de história em quadrinhos.
Segundo Aline Giovanetti, diretora regional de diagnósticos da Dasa, responsável pelos laboratórios Lavoisier, Delboni Auriemo e Salomão Zoppi, entre outros, a previsibilidade ajuda a tranquilizar os pacientes durante o exame.
“Todo o fluxo e o processo foram pensados com especialistas para ajudar a minimizar os impactos desse atendimento. As respostas têm sido muito positivas”, afirma.
No Fleury, as gestantes recebem atendimento personalizado durante todo o período da gravidez. Além dos exames laboratoriais e de imagem, comuns do pré-natal, o laboratório disponibiliza um serviço de consultoria domiciliar aos casais que estão esperando bebê.
“Nós vamos até a casa dos pais treiná-los em diversos conhecimentos, desde a troca de fraldas, banho, alimentação, primeiros cuidados e adaptação da casa para a chegada do novo bebê”, explica Patrícia Maeda, presidente da unidade de negócios B2C (negócios direto com os clientes) do grupo Fleury.
Segundo Maeda, o laboratório quer criar serviços que ajudem os clientes em novos momentos da vida. “A marca Fleury não é uma marca como no passado, de exames laboratoriais. Hoje ela é uma marca de medicina e saúde”, afirma.
Os laboratórios Fleury e Lavoisier foram eleitos pelo público paulistano como os melhores de São Paulo, com 18% e 16% das respostas na pesquisa Datafolha, respectivamente.
Ainda neste ano, o Fleury planeja lançar uma ferramenta digital de agendamento e interação com os clientes.
“Estamos sempre muito atualizados, tanto em relação às tecnologias e disponibilização de novos serviços, quanto ao acolhimento e satisfação do cliente. Essas duas características são cruciais para esse reconhecimento e valorização em relação à escolha da marca”, diz Maeda.
No grupo Dasa, as ferramentas de relacionamento com os pacientes ajudam a driblar a baixa adesão à realização de exames, com o envio de lembretes de consulta personalizados a pacientes de grupos específicos —como mulheres acima dos 40 anos, diabéticos e cardiopatas.
Giovanetti afirma que 20% das mulheres comparecem para colocar os cuidados em dia após o contato do
laboratório.
No caso dos cardiopatas, 18% retornam para fazer os exames de rotina. A ação permite que doenças graves sejam detectadas de forma precoce e, consequentemente, que o tratamento seja iniciado com antecedência.
“Estamos no dia a dia do paulistano com muita excelência, qualidade e tradição. Somos uma marca que tem intimidade com o público. Nossos colaboradores conseguem desenvolver essa proximidade”, afirma
Giovanetti.
Não tem como escapar. O uso da inteligência artificial (IA) nos hospitaisbrasileiros está se tornando cada vez mais imprescindível, não apenas para otimizar a gestão hospitalar, a eficiência operacional e aprimorar a assistência à saúde, mas também para melhorar a qualidade do atendimento ao paciente. O avanço tecnológico vem sendo implementado nas unidades hospitalares brasileiras há cerca de oito anos, com um salto nos últimos dois.
Levantamento feito no ano passado pela Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), em parceria com a Associação Brasileira de Startups de Saúde, procurou identificar quem usava essa ferramenta e quais os resultados alcançados. Dos 122 hospitais associados à Anaph na época, 45 responderam à pesquisa. Desses, 62,5% informaram que utilizam ou utilizaram a inteligência artificial de alguma forma e metade afirmou ter tido resultados práticos, enquanto 23% disseram que ainda não observou benefícios.
Uma das principais aplicações de IA informadas pelos hospitais da pesquisa é em chatbots de atendimento. Mas a ferramenta vai muito além disso e seu uso engloba áreas estratégicas de gestão de leitos e centros cirúrgicos; análise de risco de não comparecimento de indivíduos com exames agendados; análise de exames de imagem em tempo real para apoio ao diagnóstico e até mesmo no monitoramento à distância de parâmetros clínicos de pacientes com hipertensão arterial.
O Estadão ouviu nove grandes hospitais brasileiros para saber de que maneira estão usando a inteligência artificial e quais os resultados obtidos até agora. Confira os principais exemplos.
Rede D’Or
Em 2020, a rede de hospitais iniciou as primeiras experiências em inteligência artificial, mas foi em 2022 que a IA começou a ser implantada de fato, especialmente na área de radiologia nas principais unidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. O setor é o que está mais avançado, especialmente para o auxílio no diagnóstico de doenças pulmonares.
Assim como outros hospitais, a Rede D’Or usa a ferramenta LUNIT para a interpretação dos exames de raio-X de tórax: o algoritmo faz a primeira leitura da radiografia e o radiologista realiza a segunda leitura, melhorando a assertividade da análise dos dados.
“Além disso, todos os hospitais possuem uma ferramenta de reconhecimento de voz para elaborar o laudo. O profissional de saúde dita o laudo, não precisa digitar, e a ferramenta transcreve o que ele está falando. Isso é uma inteligência artificial de processamento de linguagem natural para transformar a linguagem falada na escrita”, explica Rosana Rodrigues, pesquisadora do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR).
Além disso, uma ferramenta de IA está sendo treinada para detecção, caracterização e quantificação de doenças pulmonares, como a fibrose pulmonar e a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). Por enquanto, cerca de 100 mil imagens de enfisema pulmonar, de mais de 300 exames tomográficos, estão sendo trabalhadas para que a máquina possa identificar futuramente os padrões em suas análises, sendo capaz de indicar ausência ou presença de enfisema pulmonar, seus subtipos, sua extensão e estratificar os pacientes por gravidade.
Hospital Sírio-Libanês
A instituição utiliza inteligência artificial desde 2018, tanto para otimizar a eficiência operacional, quanto para melhorar a qualidade do atendimento ao paciente.
Segundo Ailton Brandão, médico cardiologista e pesquisador do laboratório de ciências de dados aplicada (DataLab), uma das bases para o sucesso do uso da ferramenta é a estruturação de uma estratégia de dados robusta – já que a qualidade dos modelos desenvolvidos de IA dependem fundamentalmente da qualidade das informações que são inseridas. “E sempre com políticas rigorosas de privacidade e segurança. Quando falamos em saúde, precisamos de ainda mais cautela”, diz.
Um dos modelos de IA em funcionamento há mais tempo no hospital é a “Agenda Inteligente”, criada com o objetivo de reduzir o “no-show” de pacientes em exames de imagem agendados – especialmente os de ressonância magnética. De acordo com Antonildes Assunção, médico cardiologista e cientista de dados do hospital, a ferramenta correlaciona uma série de informações do paciente que agenda o procedimento, como endereço e a distância da residência dele até a unidade hospitalar, qual o convênio médico ou se o exame será feito particular, qual a profissão, entre outros indicadores. Tudo isso ajuda a calcular o risco de o paciente faltar ao exame.
Quando o risco se mostra aumentado, entra em ação a parte humana para evitar a ausência: uma das estratégias é ligar para a pessoa e não depender somente da confirmação por e-mail ou mensagens no celular.
“Com essa ferramenta conseguimos reduzir em 20% o ‘no-show’ numa área de alto custo do hospital, que são os exames de imagem. Além de produzirmos informação com mais qualidade, conseguimos definir estratégias mais eficientes para ocupação desse horário por outras pessoas. Isso reduz custos para o hospital e melhora a experiência do paciente”, avalia Assunção.
Outra ferramenta de IA em uso no Sírio-Libanês é a que acelera a realização dos exames de imagem (ressonância magnética), reduzindo o tempo do paciente dentro da máquina. Segundo Assunção, o algoritmo consegue compor a imagem mais rapidamente e com a mesma qualidade – o que gerou uma eficiência de 20% na realização dos exames. “Conseguimos reduzir o tempo do paciente dentro da máquina e liberamos o equipamento mais rápido. É um exame cuja eficiência aumentou muito”, explica.
Além disso, um segundo algoritmo analisa as imagens capturadas antes do médico olhar, avaliando possíveis riscos de hemorragia cerebral, por exemplo. “Além de automatizar o processo, antes essa análise dependia exclusivamente do olhar humano”, ressalta Brandão. “Não tenho dúvidas de que a presença da IA nos hospitais é uma tendência. Essa é uma área que reduz custos operacionais, oferece suporte diagnóstico aos médicos e melhora a experiência do paciente”, diz.
Hospital Alemão Oswaldo Cruz
A unidade vem incorporando iniciativas de desenvolvimento e aplicação de inteligência artificial desde 2021, por meio de conexões com diversas startups.
Um dos projetos de IA envolve a criação de um sistema de score de saúde utilizando ‘Processamento de Linguagem Natural’ (PLN) para analisar informações não estruturadas nos prontuários dos pacientes submetidos a check-ups. Isso possibilita uma avaliação abrangente da saúde dos indivíduos e uma visão populacional para as empresas clientes do serviço.
A ideia de estabelecer um score (e consequentemente a classificação de maior risco) é dar uma visão global da saúde do paciente e evitar um cuidado fragmentado.
Nesse projeto, um dos principais indicadores é o número de potenciais pacientes beneficiados com a aplicação da IA. Por exemplo: em uma única empresa cliente do serviço de check-up foram triados 291 pacientes utilizando a inteligência artificial. Destes, mais de 28% foram identificados como de maior criticidade, incluindo casos de pacientes crônicos e com histórico de eventos de alta complexidade. Essa análise individualizada permite uma intervenção mais rápida e precisa de quem demanda maior atenção, resultando em benefícios diretos e indiretos tanto para o paciente quanto para a empresa.
Hospital Israelita Albert Einstein
Trata-se de um dos pioneiros no uso dessa tecnologia: desde 2016 possui uma área dedicada exclusivamente para Dados e Analytics. Nesse período, 92 soluções de IA já foram testadas e desenvolvidas pelo hospital, fora os realizados em parcerias.
Segundo Edson Amaro Junior, neurorradiologista e responsável pela área de Big Data do Einstein, um exemplo do impacto da IA no dia a dia do hospital foi no controle da agenda do centro cirúrgico: o algoritmo indica qual o melhor horário, sala, equipe e o tempo de cirurgia para determinado paciente, o que garante economia ao processo em comparação com outros hospitais. “Com essa ferramenta conseguimos reorganizar a agenda do centro cirúrgico e realizar quatro cirurgias a mais por dia. Otimizamos o processo e não precisamos mais pensar em expandir o centro cirúrgico”, relata.
O hospital também usa a ferramenta LUNIT para agilizar a análise das radiografias de tórax feitas em pacientes do pronto-socorro. O algoritmo é capaz de investigar problemas como pneumonia, pneumotórax, nódulos e massas pulmonares, além de derrame pleural (líquido acumulado ao redor dos pulmões). “Ele é muito útil para descartar doenças respiratórias, como pneumonia. E a IA ajuda a mostrar alterações muito sutis, difíceis de serem vistas”, diz, acrescentando que a ferramenta também prioriza o exame que tem alguma alteração. Assim, agiliza a avaliação do médico. “Essa ferramenta contribuiu para o processamento de mais de 20 mil imagens de raio-X de tórax em 2023, apoiando médicos, inclusive os não especialistas, na análise de imagens, resultando em maior segurança, qualidade e agilidade no atendimento do paciente no pronto socorro”, disse.
E não é somente na rede privada que o Einstein usa IA. O hospital realiza projetos nas três esferas de saúde pública do SUS: Ministério da Saúde e as secretarias de Saúde municipais e estadual; possui integração com universidades do país por meio de projetos financiados pelo Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação; além de parcerias com universidades do exterior (Stanford, Maastricht e Harvard).
Um dos projetos do uso de IA em parceria com a rede pública foi realizado no norte de Minas Gerais e no sul da Bahia, antes da pandemia, para controle de hipertensão arterial na população. Os agentes de saúde foram treinados para coletar informações da comunidade de forma que a ferramenta conseguisse predizer qual a probabilidade daquela pessoa desenvolver alguma complicação em decorrência da hipertensão, como AVC, infarto, insuficiência cardíaca e dificuldade de perfusão periférica (risco de amputamento do membro).
“Com isso, fizemos uma intervenção positiva, chamando esse paciente para uma consulta mais precoce, com cuidado de não atrasar consultas já agendadas por outros pacientes. O ganho de escala, pensando no custo geral da saúde, é evitar uma internação dentro do SUS e manter a saúde dessa pessoa da comunidade. Isso é prevenção”, defende.
(Foto: Site tctech.com.br)
BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo
A instituição se tornou totalmente digital há cerca de oito anos – e a inteligência artificial é uma ferramenta que complementa esse processo. Ela tem sido usada no auxílio da interpretação de dados, na automação de rotinas e também para facilitar a interação de dados clínicos com o próprio paciente.
Segundo Lilian Quintal Hoffmann, diretora executiva de Tecnologia na BP, uma das ferramentas usadas atualmente (LUNIT) analisa com alta precisão exames de ressonâncias magnéticas do cérebro. O algoritmo foi treinado com mais de 200 mil imagens de resultados clínicos de biópsias de alta qualidade e compara minuciosamente a projeção da imagem com o banco de dados. Ele alcança 97% de precisão e marca o ponto exato onde um possível tumor é identificado, aumentando a agilidade e a precisão dos tratamentos de cânceres malignos.
Outro destaque é o projeto Smart Scheduling, que emprega IA para reduzir as faltas de pacientes em exames diagnósticos, principalmente tomografia computadorizada, ressonância magnética e PET scan. “A iniciativa já reduziu a taxa de faltas de 17% para 10% e otimizou os agendamentos. Com isso, o hospital conseguiu aumentar a ocupação dos equipamentos de 74% para 81%, auxiliando no atendimento de pacientes de uma lista de espera nos horários vagos”, conta Lilian.
Hcor
Desde 2021 o hospital tem aplicado na rotina dos profissionais e cuidado com o paciente ferramentas de inteligência artificial.
“É evidente a necessidade do uso da tecnologia para lidar com o aumento dos gastos em saúde e a escassez de profissionais, além de proporcionar uma saúde mais eficiente, produtiva e com melhores resultados”, avalia Alex Vieira, superintendente de Inteligência Digital e TI do Hcor.
Segundo Vieira, o hospital utiliza IA na medicina diagnóstica para análise de imagens e, principalmente, para auxiliar os médicos em achados críticos. Outro uso se refere à avaliação inicial das imagens de ressonância magnética, raio-X e tomografia computadorizada, com o objetivo de agilizar a realização de exames com possíveis alterações.
“Com as evidências obtidas através da IA, o médico é sinalizado e pode priorizar o atendimento, emitir o laudo rapidamente, dando celeridade no cuidado do paciente”, explica. O uso da ferramenta reduziu em 20% o tempo de análise das imagens médicas em comparação às avaliações realizadas antes do uso dessa tecnologia. “Esse procedimento ajuda o médico a ter mais qualidade no trabalho”, afirma.
Incor
O Instituto do Coração, vinculado ao Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, usa ferramentas de inteligência artificial desde 2019, quando começou o desenvolvimento de modelos para análise de imagens (como raio-X e tomografia) para apoio ao diagnóstico.
O Incor é um hospital público referenciado para atendimento de pacientes com problemas cardiovasculares encaminhados pela rede – isso significa que os seus pacientes são potencialmente cardiopatas. Um dos primeiros exames realizados quando eles chegam no pronto-atendimento é o ECG (eletrocardiograma), que vai apontar basicamente três situações: indicadores normais, alguma arritmia importante ou outro achado não classificado, que depende de análise. Esse exame seria avaliado pelo médico somente no momento em que o paciente passasse pelo atendimento no consultório.
A ferramenta de IA desenvolvida e usada atualmente pelo Incor agilizou a laudagem do ECG por meio do processamento em tempo real das imagens, priorizando os casos que tenham algum achado importante e precisem da atenção do cardiologista. Ou seja: logo que um ECG é concluído, a tecnologia processa os dados instantaneamente e os resultados são exibidos em um painel digital que auxilia a equipe clínica a priorizar o atendimento conforme a urgência de cada caso.
“Para desenvolver essa ferramenta usamos uma base de dados com resultados de mais de 100 mil laudos de ECGs realizados no Incor. A partir daí, treinamos o algoritmo para aprender a analisar a imagem e apontar possíveis diagnósticos naquele exame. Começamos a usá-la em 2019 e mais de 75 mil exames já foram avaliados por meio dessa plataforma”, aponta Marco Antônio Gutierrez, diretor de TI do Incor, que ressalta, no entanto, que essas ferramentas são projetadas para apoiar a tomada de decisão clínica, não substituindo o julgamento médico. “A decisão final sempre cabe à equipe clínica. A tecnologia é um suporte valioso, mas que não substitui o papel do profissional de saúde.”
Uma outra ferramenta desenvolvida pelo Incor e que está em fase de testes é o “sensor vestível”. Trata-se de sensor biocompatível que é “colado” no corpo do paciente para monitorar em tempo real e de forma ininterrupta indicadores clínicos essenciais. A ferramenta calcula a pressão arterial máxima e mínima, a frequência cardíaca, a temperatura e a saturação de oxigênio – os dados são enviados para o Incor. A partir desses achados, o médico pode identificar possíveis descompensações e mudar a conduta do tratamento, por exemplo.
Segundo Gutierrez, essa é uma ferramenta essencial para o acompanhamento do paciente crítico do serviço público, porque não custa caro (estima-se custo de 20 dólares por unidade) e parece ser muito mais eficaz do que o exame convencional – ou seja, o MAPA, que monitora a pressão arterial do paciente por 24 horas, mas depende do manejo adequado do aparelho, que fica preso ao braço, e pode captar medidas imprecisas.
“A tecnologia já está muito bem definida, sabemos que funciona. O que vamos fazer agora é iniciar um estudo clínico para comparar a precisão dos resultados do MAPA com o sensor vestível”, comenta. Gutierrez frisa, no entanto, que o aparelho não seria para todos os pacientes, mas sim para aqueles identificados como de maior risco.
Hospital Moinhos de Vento
O hospital colocou a transformação digital no centro do seu mapa estratégico em 2022 e iniciou projetos para digitalizar a instituição e implementar a IA com o objetivo de melhorar processos assistenciais e administrativos. “A inteligência artificial não é uma continuidade da internet, é um novo salto. Ela veio para auxiliar na tomada de decisões e sua aplicação na saúde requer muitos cuidados. Uma tomada de decisão errada pode ter um impacto muito grande na vida de uma pessoa”, analisa Mohamed Parrini, CEO do hospital.
Uma das ferramentas em uso pelo hospital é para análise de imagens cerebrais de tomografias realizadas em pacientes que dão entrada na emergência com suspeita de AVC (acidente vascular cerebral). Antes do uso de IA, a equipe precisava esperar o laudo do exame ficar pronto para tomar uma decisão.
“Nos pacientes com AVC, cada minuto conta. Temos uma janela de tempo muito pequena para a tomada de decisões e evitar sequelas. Nesses casos, a IA analisa as imagens de forma muito mais precisa e mapeia as áreas do cérebro onde existe alguma lesão, indicando o possível diagnóstico. Ela faz isso com uma agilidade que o olho humano não conseguiria de forma tão rápida, principalmente se for um local muito pequeno”, explica Parrini.
Outra ferramenta de IA que ainda está em teste no atendimento de emergência do hospital é o uso do reconhecimento de voz durante a anamnese entre médico e paciente. Chamada de IA generativa, a tecnologia registra a conversa e instantaneamente a transcreve o conteúdo – o médico não precisa digitar nada, tudo é feito de forma automática pela ferramenta.
Com base no que foi relatado pelo paciente e nas perguntas feitas pelo médico, o sistema avalia o caso e sugere novas perguntas e condutas médicas, entre elas realização de exames, tratamento e diagnósticos. “A transcrição de voz é algo relativamente comum. A diferença aqui é que todo o diálogo é transcrito em linguagem técnica, inclusive com a informação do CID, que é a classificação internacional de doenças, essencial para o diagnóstico desse paciente e para o acompanhamento do caso”, diz Parrini. “A ferramenta é um suporte para a tomada de decisão do médico, que terá mais tempo de se dedicar ao paciente.”
Hospital Nove de Julho
A instituição tem testado e implementado inteligência artificial desde 2022 – algumas são desenvolvidas internamente e outras por meio de parcerias com startups. Um dos destaques é o uso de algoritmos para suporte ao laudo no eletrocardiograma, em uso desde abril de 2023, reduzindo o tempo entre diagnóstico e tratamento.
Segundo Victor Gadelha, Head Médico de Inovação, Pesquisa e Educação da Dasa, neste projeto os eletrocardiogramas realizados ficam armazenados em nuvem e são filtrados por algoritmos de IA. Os que apresentam alterações no traçado são priorizados para o médico fazer o laudo, diminuindo o tempo de início de tratamento. “Com a tecnologia, o médico consegue ser muito mais eficiente, emitindo o laudo em até cinco minutos em casos de urgência”, relata, ao destacar que o modelo é usado em mais 11 hospitais da Dasa.
Outra tecnologia que vale destaque é o uso de algoritmos de processamento de linguagem natural (NPL), que fazem uma varredura no banco de dados de exames realizados no hospital em busca de achados clínicos relevantes, como um potencial câncer de mama. A partir daí, o objetivo é tentar acelerar a jornada de cuidado desse paciente em busca do melhor desfecho possível.
“Para ter uma ideia, quando um paciente que passou pela Dasa com um achado identificado por meio de NLP é alertado pelo seu médico, ele consegue dar o próximo passo no tratamento, em média, depois de sete dias. Quando ele não é alertado, o tempo médio é de 17 dias. Isso faz toda diferença para o melhor desfecho clínico do tratamento”, destaca.