Endividamento recorde comprime renda e limita consumo das famílias brasileiras
Juros elevados e maior comprometimento do orçamento tornam recuperação mais lenta, e inadimplência avança entre consumidores mais pobres

 

Da Jaqueline Mendes, do Brazil Economy

O recorde de endividamento das famílias brasileiras revela um problema que vai além do crescimento das dívidas. Com uma parcela cada vez maior da renda comprometida antes mesmo de chegar ao consumo, o crédito começa a funcionar como um limitador da atividade econômica, principalmente entre os brasileiros de menor renda.

Em julho, 82% das famílias tinham algum compromisso financeiro a vencer, maior percentual da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Foi o sexto recorde consecutivo. Em junho, eram 81,6% e, um ano antes, 78,5%.

O dado mais preocupante, porém, aparece quando se observa quanto do orçamento já está comprometido. Entre os consumidores endividados, 29,5% da renda mensal, em média, está destinada ao pagamento de compromissos financeiros. A parcela das famílias que precisam reservar mais da metade dos rendimentos para pagar dívidas chegou a 19% em julho, maior nível desde março.

Na prática, significa que parte relevante da renda gerada pelo mercado de trabalho deixa de circular livremente pela economia e já chega às famílias destinada ao pagamento de obrigações anteriores. Isso reduz o espaço para novas compras e ajuda a explicar por que uma melhora da renda e do emprego não necessariamente se converte, na mesma intensidade, em expansão do consumo.

A situação se torna ainda mais delicada porque o crédito permanece caro. Embora o Banco Central tenha iniciado a redução da Selic, que chegou a 14% ao ano, a transmissão da política monetária para empréstimos, financiamentos e renegociações ocorre de maneira gradual.

Para o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, a redução dos juros básicos abre caminho para uma melhora das condições financeiras, mas não será suficiente para produzir alívio imediato no orçamento.

“A decisão de reduzir os juros básicos tende a contribuir para a diminuição do custo das novas operações de crédito e para a renegociação de dívidas em condições mais favoráveis. No entanto, o elevado comprometimento da renda mostra que a recuperação da capacidade de consumo das famílias será gradual”, afirma Bentes.

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Percentual de famílias endividadas sobe pela primeira vez no ano

O percentual de famílias com dívidas ou contas em atraso aumentou em março pela primeira vez no ano, atingindo 25,2%, uma alta de 0,3 ponto percentual. A constatação é da Pesquisa de Envidamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) divulgada hoje (4), no Rio de Janeiro, pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Ela aponta o cartão de crédito como o principal compromisso financeiro para 76,4% das famílias endividadas.

O percentual das famílias que declararam não ter condições de pagar suas contas ou dívidas em atraso, ou seja, que permaneceriam inadimplentes, passou de 9,7% em fevereiro para 10% em março, apresentando queda em relação aos 10,4% de março de 2017.

Para a economista Marianne Hanson, da CNC, a alta é influenciada pelo efeito sazonal provocado pelos gastos de fim de ano. “O efeito sazonal do comprometimento de renda com gastos extras de início de ano influencia esse resultado”, afirmou.

O estudo aponta, no entanto, que a proporção de famílias endividadas se manteve estável nos 61,2% de fevereiro, o mesmo não acontecendo quando a comparação é com março do ano passado, com o indicador subindo 0,4 ponto percentual.

Depois do cartão de crédito, responsável pelos 76,4% do endividamento das famílias, vêm os carnês, com 16,6% e, em seguida, o crédito pessoal, que responde por 10,4% do endividamento familiar.

Nível de endividamento cresce

Os dados da publicação da CNC indicam que a proporção das famílias que se declararam muito endividadas também aumentou em relação a fevereiro, passando de 13,6% para 14,1% do total de entrevistados, uma alta de 0,5 ponto percentual. Já na comparação anual, houve queda de 0,6 ponto percentual nesta proporção dos muitos endividados.

Neste último caso, segundo Marianne Hanson, a retração decorreu “da queda das taxas de juros e da recuperação da renda do trabalho que têm favorecido uma recuperação gradual em algumas modalidades de crédito, o que impacta diretamente o endividamento”.

Já do ponto de vista do prazo do endividamento, o tempo médio de atraso para o pagamento de dívidas ficou, em março, em 64,4 dias, inferior aos 64,8 no mesmo período do ano passado.

Em média, segundo a CNC, o comprometimento com as dívidas foi de 6,9 meses, sendo que 31,3% das famílias possuem dívidas por mais de um ano. Entre aquelas endividadas, 20% afirmam ter mais da metade da sua renda mensal comprometida com o pagamento de dívidas.

A Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic Nacional) é apurada mensalmente pela CNC desde janeiro de 2010. Os dados são coletados em todas as capitais, abrangendo cerca de 18 mil consumidores.