Varejo brasileiro enfrenta mudança estrutural diante do avanço das plataformas digitais
Juros elevados agravam dificuldades conjunturais

 

Por Hugo Cilo, do Brazil Economy

 

Os balanços do segundo trimestre de 2026 expuseram uma divisão cada vez mais nítida no varejo brasileiro. De um lado, redes tradicionais enfrentam vendas fracas, crédito caro, consumidores endividados e estruturas físicas que exigem despesas elevadas. De outro, plataformas como Mercado Livre, Amazon e Shopee ampliam receitas, pedidos e participação de mercado, apoiadas em escala, tecnologia, logística e serviços financeiros.

A diferença não significa que as lojas físicas tenham perdido sua função ou que todas as empresas tradicionais estejam condenadas ao declínio. O desempenho recorde da Riachuelo mostra justamente o contrário. O ponto central é que o ambiente macroeconômico adverso passou a acelerar uma transformação estrutural que já estava em curso e que, anos atrás, provocou uma onda de fechamentos, recuperações judiciais e mudanças de formato no varejo dos Estados Unidos.

No Brasil, a conjuntura torna essa adaptação mais difícil. Mesmo após o início do ciclo de cortes, a taxa Selic permanece em 14% ao ano. O custo elevado do dinheiro limita compras parceladas, pressiona o capital de giro e aumenta as despesas financeiras das companhias. O endividamento das famílias, por sua vez, reduz a renda disponível e obriga o consumidor a concentrar gastos em itens essenciais.

Os efeitos são mais intensos em segmentos dependentes de financiamento, como móveis, eletrodomésticos e eletrônicos. Também atingem empresas com dívidas elevadas ou grande necessidade de recursos para financiar estoques, crediário e expansão.

Na temporada de balanços dos últimos dias, o Magazine Luiza registrou queda de 2,6% na receita líquida, para aproximadamente R$ 8,9 bilhões. O volume bruto de mercadorias, o GMV, recuou 5%, enquanto o indicador do comércio eletrônico caiu cerca de 12%, tanto nas vendas próprias quanto no marketplace. O desempenho das lojas físicas foi melhor, com crescimento de 10%, favorecido pela demanda por televisores durante a Copa do Mundo.

A diferença entre os canais revela uma das contradições do momento. O Magalu construiu uma das operações digitais mais relevantes entre as empresas brasileiras, mas precisa concorrer com plataformas globais dispostas a investir grandes volumes em frete, publicidade, tecnologia e aquisição de clientes. Ao mesmo tempo, carrega uma rede física, estoques próprios e uma operação financeira exposta ao custo do crédito.

A Casas Bahia representa o quadro mais grave. A companhia apresentou prejuízo superior a R$ 10 bilhões, dos quais R$ 9,1 bilhões decorreram de efeitos contábeis não recorrentes relacionados ao redimensionamento da operação. Mesmo descontados esses impactos, porém, o resultado permaneceu negativo. A rede fechou 298 lojas e passou a admitir a possibilidade de uma nova recuperação extrajudicial ou judicial.

A crise da empresa não pode ser atribuída exclusivamente à concorrência digital. Endividamento, dificuldades de financiamento, perda de rentabilidade e problemas de execução também pesaram. Ainda assim, o caso mostra como uma estrutura construída para outro ciclo do consumo pode se tornar vulnerável quando o crédito encarece e o cliente passa a comparar preços, prazos e condições de entrega em poucos segundos.

A pressão também chegou à moda, embora de maneira desigual. A Renner obteve receita consolidada de R$ 4,2 bilhões, avanço de apenas 1%, e lucro praticamente estável em R$ 405 milhões. Diante da desaceleração das vendas, a companhia reduziu sua estimativa de crescimento da receita varejista em 2026, anteriormente situada entre 9% e 13%, para uma faixa de 4% a 8%.

Além do ambiente econômico e da redução do fluxo durante a Copa do Mundo, a empresa mencionou o aumento da concorrência de plataformas internacionais. Esse elemento é importante porque mostra que o avanço dos marketplaces deixou de afetar somente eletrônicos e artigos para o lar. Shopee, Shein, Amazon e Mercado Livre disputam agora categorias como roupas, cosméticos, acessórios e itens de consumo recorrente.

A Riachuelo destoou desse cenário. A varejista alcançou lucro de R$ 167,9 milhões, crescimento anual de 36,2% e o melhor resultado já registrado pela companhia em um segundo trimestre. A receita líquida avançou 3,3%, para R$ 2,69 bilhões, enquanto o Ebitda cresceu 12,7%, para R$ 460,6 milhões.

O desempenho foi sustentado por vendas maiores de vestuário, redução de remarcações, controle de estoques, eficiência industrial e recuperação da operação financeira Midway. A companhia demonstrou que o cenário econômico não determina sozinho os vencedores e perdedores. Execução, posicionamento, diferenciação e disciplina financeira continuam decisivos.

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Fluke cria operação dedicada ao varejo e projeta dobrar participação no canal em dois anos
Companhia prevê abertura de 500 novos pontos de venda em 2026 e futura expansão para home centers e lojas de departamento

Da Redação

A Fluke iniciou uma nova estratégia de expansão no varejo brasileiro ao estruturar um canal de revenda dedicado a pequenos e médios lojistas. A iniciativa busca atender uma demanda já identificada de cerca de mil revendedores interessados em comercializar a marca e faz parte do plano da companhia para ampliar sua presença no varejo físico e digital, dobrando a participação do canal nos próximos dois anos.

Embora os produtos de varejo da empresa já estivessem disponíveis ao consumidor final em lojas físicas, e-commerce e marketplaces como Amazon e Mercado Livre, os pequenos e médios lojistas enfrentavam dificuldades para acessar condições comerciais competitivas para revenda. Isso ocorria porque os produtos eram adquiridos majoritariamente por meio de distribuidores especializados no segmento industrial, modelo que restringia a capilaridade do varejo para a Fluke e limitava a comercialização de seus equipamentos em termos de preço e margem para esses pequenos comerciantes.

A retomada do foco no varejo faz parte de uma estratégia mais ampla da companhia, que é líder mundial em ferramentas de teste e medição profissionais, para ampliar sua capilaridade no Brasil. O movimento ganhou impulso a partir do crescimento das vendas digitais e da parceria direta com a Amazon, que reforçou o potencial de expansão da marca além dos canais industriais tradicionais.

A decisão acompanha o desempenho do varejo brasileiro, que encerrou 2025 com alta de 1,6%, segundo dados do IBGE, e apresentou um crescimento de 1,2% no primeiro trimestre de 2026, na comparação com o mesmo período de 2025, segundo levantamento da Mastercard Spendingpulse.

De acordo com o Gerente Nacional de Vendas para o Varejo da Fluke Brasil, Rodrigo Garavelli, a empresa só precisava desenhar a melhor estrutura para suportar esse movimento. “Identificamos uma demanda relevante de lojistas que reconhecem o valor da marca e desejam ampliar sua oferta de produtos profissionais. O que faltava era uma estrutura comercial adequada para atender esse público de forma competitiva e sustentável. Com esse novo modelo, conseguimos aproximar a Fluke de um universo muito maior de revendedores”, afirma.

Expansão com capilaridade nacional

Para viabilizar a expansão, a Fluke escolheu o Grupo OVD como parceiro estratégico na fase inicial da operação. Com atuação nacional, cerca de 65 mil clientes ativos e uma força comercial composta por aproximadamente 900 representantes, a distribuidora atacadista de ferramentas e equipamentos será responsável por ampliar rapidamente a capilaridade da operação em todo o país.

O portfólio disponível para revenda reúne um pull restrito de itens de varejo, com foco em quatro produtos principais. O modelo não é exclusivo, de modo que outros distribuidores podem operá-lo desde que cumpram os critérios definidos pela Fluke. Já os produtos voltados à indústria permanecem com os distribuidores especializados, que dispõem de equipe técnica, demonstrações de equipamentos e estrutura de estoque.

A nova estrutura também estabelece diretrizes comerciais específicas para o varejo, criando maior previsibilidade de preços e condições competitivas entre lojas físicas, distribuidores e marketplaces.

Segundo Garavelli, o varejo representa uma importante frente de crescimento para a Fluke no Brasil. “Nossa expectativa é ampliar significativamente a presença da marca nos pontos de venda e fortalecer o relacionamento com lojistas que buscam produtos reconhecidos por qualidade, segurança e confiabilidade”, ressalta o executivo.

Meta de crescimento e novas frentes de atuação

A expectativa da companhia é abrir 500 novos pontos de venda já em 2026 e dobrar o tamanho da operação de varejo em até dois anos, ampliando a presença em lojas físicas de regiões onde hoje é encontrada somente no ambiente digital. Para os lojistas, a operação oferece acesso a um portfólio dedicado de produtos de varejo em condições comerciais que tornam a revenda mais competitiva e atrativa.

Em uma segunda fase, a companhia pretende expandir sua presença para home centers e lojas de departamento, ampliando a exposição da marca e aproximando seus produtos de um público mais amplo.

“A expansão do varejo tem potencial para impulsionar todo o ecossistema de negócios da Fluke no país. Quanto maior a presença da marca nos pontos de venda, maior o interesse por nossos equipamentos e, como consequência, na disseminação de tecnologias que ajudam profissionais a trabalhar com mais precisão, segurança e eficiência”, conclui Garavelli.

Pesquisa da CNC revela que varejistas estão cautelosos e menos otimistas com a economia
Índice de Confiança do Empresário do Comércio caiu em fevereiro com a retração de todos os segmentos analisados

 

Da Redação

Pelo segundo mês consecutivo, o Índice de Confiança do Empresário do Comércio (Icec) registrou queda, evidenciando o clima menos otimista no varejo diante de um cenário econômico mais desafiador. Realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a pesquisa registrou em fevereiro baixa de 2,1% na comparação com janeiro e de 5,4% em relação a fevereiro do ano anterior, atingindo 103,7 pontos. Ainda assim, o indicador segue acima do nível de satisfação (acima de 100 pontos).

O resultado é reflexo da queda de quase todos os componentes analisados, com peso maior para “condições atuais da economia”, que caiu 6,5% na variação mensal e 18,7% no comparativo com o mesmo mês do ano passado. O único subíndice em crescimento foi o de “intenções de investimento em estoque”, que subiu 0,1% nos dois cenários em retrospecto.

“A redução da confiança é coerente com o ambiente de juros elevados e de trajetória mais complexa do que no início de 2024. Esses fatores seguem impactando as decisões do empresariado e exigindo cautela na condução dos negócios nos próximos meses. É algo a ser acompanhado de perto, já que o otimismo do setor é essencial para impulsionar os investimentos e gerar crescimento para o País”, afirma o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros.  

Segmentos em queda

Contribuiu para o saldo negativo do Icec a retração de todos os segmentos observados, principalmente pelas lojas do varejo de supermercados, farmácias e lojas de cosméticos, com variação negativa mensal de 3,3%. Roupas, calçados, tecidos e acessórios recuaram 1,7%, enquanto o segmento de eletroeletrônicos, eletrodomésticos, móveis e decorações, cine/foto/som, materiais de construção e veículos tiveram uma queda de 2,7%.

“Os comerciantes têm sentido muito o impacto da Selic alta, com a tendência de novos aumentos. A prova disso é que na percepção atual do comércio, as atividades que englobam os bens de maior valor agregado (eletroeletrônicos, móveis e decorações, cine/foto/som, materiais de construção e veículos) caíram 5,3% em relação a janeiro porque são eles os mais afetados pela evolução dos juros”, explica o economista-chefe da CNC, Felipe Tavares.

Sobre o Icec

O Índice de Confiança do Empresário do Comércio (Icec) é um indicador mensal antecedente, apurado entre os tomadores de decisão das empresas de varejo para detectar as tendências das ações do setor do ponto de vista do empresário. A amostra é composta por aproximadamente seis mil empresas situadas em todas as capitais do País, e os subíndices apresentam dispersões que variam de zero a 200 pontos. O Icec avalia as condições atuais, as expectativas de curto prazo e as intenções de investimento dos negócios do comércio.

Tempos modernos: varejo se conecta à geração Z por meio de conceitos como sustentabilidade, saudabilidade e inovação
*Por Francisco Bakaus

Francisco Bakaus, Gerente Nacional de Vendas da Produtos Paraná.

O varejo é um dos segmentos do mercado que mais se atualiza com foco no público consumidor, afinal, é um modelo de venda que tem como característica justamente o contato com o cliente final. E como percepções sobre o mundo e desejos individuais de grande parte da sociedade estão sempre em mudança, nada faz mais sentido para o varejo do que acompanhar tais movimentos e antecipar os anseios dos consumidores, especialmente os mais jovens.

A sustentabilidade, por exemplo, é um tema cada vez mais em evidência nas sociedades do mundo todo e, por consequência, no mundo empresarial. De acordo com uma pesquisa recente da Cone Communications, quase 30% das pessoas nascidas entre 1995 e 2010 demonstram preocupação em temas como meio ambiente, pobreza e igualdade, o que reflete evidentemente na forma como elas consomem no varejo. A geração Z, nome dado a quem faz parte dessa faixa etária, prefere comprar de marcas sustentáveis (62%) e estão dispostas a pagar mais por produtos eco-friendly (73%), como mostra um estudo conduzido pela empresa First Insight.

Nesse tema, o varejo tem avançado na implementação de estratégias que objetivam a diminuição de emissão de combustíveis fósseis na operação, na venda de produtos ambientalmente mais responsáveis, bem como na utilização de matérias-primas mais ecológicas, quando aplicável. Além disso, muitas companhias do setor entenderam ao longo dos anos que a criação de políticas voltada à sustentabilidade também beneficiam — além do meio ambiente e a sociedade — a própria companhia, que consegue se reposicionar de acordo com os anseios de consumo do público.

O aumento da preocupação do varejo com a sustentabilidade também se conecta ao conceito de saudabilidade, outra ideia também utilizada frequentemente pela geração Z para definir hábitos saudáveis. Em termos práticos, isso significa que há um foco maior dos jovens na forma como eles se alimentam, a procedência de cada produto, bem como a promoção da qualidade de vida como um todo. O varejo, por causa disso, também vem implementando estratégias para atender a diversas demandas de um público cada vez mais analítico do que consome e pratica cotidianamente. O âmbito farmacêutico, por exemplo, já direciona esforços para apresentar produtos com foco na prevenção, não apenas no tratamento de doenças, como sempre fez. O mesmo pode ser visto no varejo de alimentos, com a disponibilização de produtos e serviços cada vez mais voltados à saúde e à qualidade de vida.

Todos esses elementos certamente não teriam crescido tanto nos últimos anos sem a disseminação da tecnologia observada nas últimas décadas. E a geração Z, nativamente digital, é o principal público mergulhado nesse mundo hiperconectado e com grande troca de informações a cada segundo. A partir dessa realidade, o varejo investe sequencialmente em inovações tecnológicas para atender a todas essas demandas. Ou seja, se há um grupo tão relevante de pessoas em busca de mais informações sobre o que consomem, almejando comprar com poucos cliques e de modo seguro, é natural que o varejo atue para oferecer tudo isso rapidamente. Expansão de marketplaces, uso de Inteligência Artificial nos negócios e implementação de Internet das Coisas, por exemplo, são apenas alguns dos recursos aplicados pelo varejo para captar cada vez mais a geração Z e conseguir fidelizá-la.

O Varejo Ampliado (segmento que considera a venda de bens de consumo, incluindo veículos e materiais de construção) teve 26,4% de impacto no PIB nacional em 2023, com crescimento nominal de 8,4% em relação a 2022, mostram dados divulgados pela Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo. Ou seja, o varejo é uma fatia do PIB nacional que tem uma representação fundamental. Desse modo, é crucial que companhias dos mais distintos setores varejistas elaborem estratégias que consigam atender às demandas da geração Z, fatia da população com grande participação na economia e que prega constantemente mudanças relacionadas ao consumo. Negar essa realidade significa não entender o que significa o próprio varejo: capacidade de adaptação.